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1966: Um gremista em meio à revolução cultural inglesa

Alcindo, o maior artilheiro da história do Grêmio, jogou ao lado de Pelé e Garrincha na Copa de 1966. Foto: cbf.com.br

Em 1966, a Inglaterra assumiu a hegemonia midiática do planeta. Berço do futebol, o país ditava todo o conceito estético e artístico na década. Porta vozes dessa revolução ideológica, os Beatles eram a representação de uma geração que construía uma identidade própria, onde tinha no estilo e no culto à arte suas principais características. Neste ano, o quarteto lançou o disco Revolver, que mudaria o patamar do grupo e ditaria uma nova forma de se ver o estilo rock n’ roll. No cinema, o diretor italiano Michelangelo Antonioni, encantado pelos movimentos sociais, artísticos e comportamentais ingleses, vai a Londres e dirige o filme Blow Up, onde a produção é uma homenagem à efervescência cultural que a Inglaterra brindava ao mundo. Dentro das quatro linhas, o país receberia a Copa do Mundo. Seria o encontro da competição com o país que inventou a modalidade.

Voltando à América do Sul, olhando para o Mundialito, o Brasil defenderia o bicampeonato conquistado em 1958 e 1962. Entre os experientes atletas brasileiros, existia um atacante que iria para seu primeiro mundial.

Assim como os Beatles, Alcindo, atacante do Grêmio, com 21 anos, era o oxigênio necessário para um grupo que conservava a experiência com a manutenção da base desde a conquista na Copa da Suécia, há oito anos. Com apelido de Bugre, em decorrência de sua descendência indígena, acumulava conquistas no Rio Grande do Sul. Foi bicampeão Gaúcho, em 1964 e 1965  – última vez que o clube conquistou o título de forma invicta -, e Citadino, também no mesmo período.

Exibindo seu cartão de boas-vindas, o jogador tinha números impressionantes. Em 1965, ano que antecedeu o Mundial, o Bugre marcou 62 gols em 55 partidas disputadas. Apesar do número impressionante, foi em 1966, na Azenha, que o jovem foi apresentado ao mundo.

No dia 16 de fevereiro, o Grêmio recebeu a Seleção Soviética para um amistoso no Estádio Olímpico. No regime político do país, o esporte era visto como uma grande ferramenta propagandista, assim existindo muito investimento na prática, inclusive excursões, visando o intercâmbio esportivo. Com força, intensidade e técnica, a equipe ditava o que era o mais moderno no futebol na época. Futuramente, ainda no mesmo ano, os soviéticos terminariam a Copa da Inglaterra na quarta posição. Só que eles não contavam com a força do atacante gremista.

Naquela noite, Alcindo foi protagonista, marcando dois gols na segunda etapa. 2 a 0. A vitória coletiva foi do Grêmio. A conquista pessoal do Bugre. Entre os presentes no estádio, estavam dirigentes da CBD. Apesar dos bons predicados do adversário, o autor dos tentos mostrou que era um jogador capaz de ir contra toda a megalomania esportiva de uma nação. Com a atuação de gala, sob olhares atentos da cúpula do futebol nacional, foi o carimbo no passaporte para a terra da Rainha.

No Mundial, o Brasil caiu no grupo três, junto com Bulgária, Hungria e Portugal. A sede da seleção canarinho era Liverpool, justamente a cidade do quarteto que embalava o mundo.

O atleta gremista, com status de titular, tinha uma grande responsabilidade: dividir o comando de ataque com Garrincha, Jairzinho e Pelé. Na primeira partida, enfrentando a Bulgária, vitória por 2 a 0, gols de Garrincha e Pelé. Alcindo esteve em campo e ajudou no êxito.

Em meio às conquistas pessoais e coletivas, Pelé era visado pelos adversários. Os oponentes usavam da violência para tirar o ímpeto do Rei do Futebol. Contudo, isso teve o reflexo negativo. No primeiro compromisso em terra inglesa, o camisa 10 saiu machucado. Era o primeiro sinal que a Copa poderia ser danosa ao bicampeão.

O segundo confronto foi o início da queda. No Goodison Park, Brasil e Hungria se enfrentaram. Bugre jogou ao lado de Tostão e Jarzinho. Sem a figura de Pelé, ausente por lesão, em decorrência da perseguição dos oponentes, a Seleção tropeçou, perdendo por 3 a 1.

O terceiro e último confronto era um desafio para a equipe do treinador Vicente Ítalo Feola. Contra Portugal, os brasileiros decidiam seu futuro no Mundial, e tinha esperança na volta de Pelé. Alcindo não jogou. A vaga foi ocupada por Paraná. O adversário não era fácil. A delegação portuguesa tinha Eusébio, e a base do grupo foi montada a partir da equipe do Benfica, campeã da Europa em 1961 e 1962. Quando a bola rolou, mais uma vez, Pelé foi caçado e a equipe dominada. Derrota por 3 a 1. Brasil fora na primeira fase.

Por um momentos, saindo dos anos sessenta e brincando com o futuro, Oto Glória, comandante português, que levou os lusitanos ao terceiro lugar na Copa do Mundo de 1966, viria a ser treinador do Grêmio no ano de 1971.

 

12/07/1966: Brasil 2 x 0 Bulgária. Em pé: Djalma Santos, Denilson, Bellini, Gilmar, Altair, Paulo Henrique. Agachados: Mário Américo, Garrincha, Lima, Alcindo, Pele e Jairzinho

 

Em 2014, durante entrevista ao jornal Correio do Povo, Alcindo analisou a campanha brasileira na competição: “Jogamos a Copa de 66 com o time de 58. Eu era o único titular jovem. Se passaram oito anos e o time não foi renovado. Me machuquei antes da Copa e só fui jogar lá. Fiquei fora da preparação. Achamos que os gringos iriam sentir a pressão de jogar contra nomes como Pelé e Garrincha, mas eles vieram fisicamente melhor e passaram por cima. Acho que a Copa de 66 serviu de lição para ganharmos a de 70”.

Depois da Copa, o atacante continuou fazendo história no Tricolor. Atuou até 1971.  Em seu hiato com a camisa gremista, em 1972 e 1973, jogou ao lado de Pelé, no Santos. O Rei do Futebol fez questão e pediu para tê-lo como companheiro de equipe. Além da passagem por terras paulistas, jogou no América do México, entre 1975 e 1976. Voltou ao clube em 1977, jogando até 1978. Foram 356 jogos, com 264 gols. O maior artilheiro da história do Grêmio.

Da Azenha para a Copa do Mundo. De Porto Alegre para o centro da revolução comportamental do mundo. Do Grêmio para a Seleção Brasileira. Como diria meu amigo Daison Sant’Anna, a vida de Alcindo Martha de Freitas é para ser contada em um livro.

 

Fontes: Daison Sant’Anna, Blog Corneta do RW, Arquivos Mundiais, Jornal Correio do Povo e Globo Esporte

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