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26/06/80: O dia em que o Grêmio derrotou Maradona

Foto: Acervo Histórico do Grêmio com Valério Reis e Pablo da Rosa

A data 26 de junho representa um episódio marcante para o futebol do Rio Grande do Sul. No ano de 1980, em meio aos festejos da reinauguração do Estádio Olímpico, o craque Diego Armando Maradona atuou em Porto Alegre, jogando contra o Grêmio. Na época, defendendo a camisa do Argentinos Juniors, o argentino, principal jogador do continente na época, foi derrotado por 1 a 0. O gol do triunfo gremista foi marcado pelo jovem Jorge Leandro. Seria o único momento em que Maradona atuaria no Estado. O confronto representou a última partida do festival de reinauguração da monumental casa tricolor. Hoje, 38 anos depois, celebramos o aniversário desse momento histórico para o clube e do futebol gaúcho.

Palco de batalhas e conquistas épicas, o Estádio Olímpico é o divisor de águas na caminhada vitoriosa do Grêmio. Saindo da Baixada, berço do futebol gremista – estádio pequeno, construído basicamente por madeira -, o clube precisava de uma casa para condizer com o patamar que o time estava chegando no aspecto nacional. Para a construção da nova casa, o presidente Saturnino Vanzelotti comprou uma área no bairro da Azenha e começou a desenvolver o projeto. Na época, assim como vemos na nossa moderna Arena, era um lugar de pouca vida popular. Uma área com pouco desenvolvimento urbano e social. A evolução foi conjunta, estádio e região. O estádio fora inaugurado em 1954, em partida contra o Nacional do Uruguai. Na oportunidade, vitória por a 2 a 0, dois gols de Vitor.

O time elevou seu patamar. Na nova casa, acumulou façanhas. Entre as marcas, podemos relembrar o título do Torneio Sul-Brasileiro, invicto, de 1962, a Copa Rio da Prata de 1968 – em um quadrangular que contava com Nacional, Peñarol (duas vezes campeão mundial) e Internacional. Entre as taças conquistas tendo o estádio como palco, a equipe acumulou 12 títulos conquistados em 13 disputados, no período de entre 1956 a 1968.

Em 1976, Hélio Dourado assume a presidência do clube. Entre os objetivos que almejava no comando da instituição, sonhava ampliar o Olímpico. Para o novo presidente, era necessário ampliar o estádio para assim sonhar com conquistas maiores no território nacional e mundial.

Para concretizar a fantasia, mobilizou a torcida gremista por todo o Estado. Adotando a campanha por cimento, a comitiva conseguia viabilizar materiais para a reforma. A modernização física e ideológica do clube estava simbolizada no desenvolvimento de seu novo palco. Em entrevista ao repórter Rafael Kehl, Hélio Dourado declarou: “A campanha do cimento foi o grande salto para o Olímpico se tornar monumental. Quem fez aquilo foi a torcida do Grêmio, eu apenas fui o comandante”.

O lar começa se tornar monumental em 1977, justamente no ano em que a equipe, em campo, quebra a hegemonia do rival com o gol antológico de André Catimba. Assim como o atacante, o salto da equipe, em 77, é para o infinito, para glória, sem previsão de volta.  A conclusão da obra vem em junho de 1980.

Antes do Campeonato Gaúcho de 1980, com a construção finalizada, o Grêmio preparou um festival de reinauguração do Olímpico. Na primeira partida, dia 21 de junho, os donos da nova casa enfrentariam o Vasco, vice-campeão Brasileiro de 1979. A partida ficou caracterizada, coincidentemente, pelo protagonismo de vários personagens que fariam história no clube. Leão debutava no arco tricolor. Renato Portaluppi, vindo do Esportivo, também teria o primeiro contato com o gramado onde escreveria histórias épicas anos depois. O Grêmio venceu por 1 a 0, gol de Baltazar – que viria fazer o gol do título Brasileiro no ano seguinte. Em uma jogada de Jurandir, a bola foi cruzada para o atacante, que cabeceou na trave. Como um imã, a pelota volta aos pés do gremista, e ele só finalizou com o pé para gol. 1 a 0. O treinador era Valdir Espinosa, em sua primeira passagem, pouco lembrada, no comando clube. No gol do Vasco, Mazzaropi sofreu o primeiro gol do novo estádio. O goleiro, mais um personagem, chegaria ao clube três anos depois para conquistar a América e o Mundo. Na partida inaugural do Olímpico, vitória.

 

Grêmio no jogo de inauguração do Estádio Olímpico. Foto: Acervo histórico do Grêmio com Valério Reis e Pablo da Rosa

O segundo momento da festa foi contra o River Plate, de Ubaldo Fillol, campeão do mundo pela Argentina em 1978. Dia 24 de junho de 1980. Derrota em casa. Contra o time que seria base da Seleção Argentina que jogaria a Copa do Mundo de 1982, os gaúchos fizeram um confronto disputado. Em um jogo caracterizado pelo equilíbrio ofensivo, sorte do adversário que conseguiu balançar as redes com Tarantini, lateral histórico da equipe argentina. Apesar da derrota, o estádio ainda receberia um adversário especial para brindar os festejos da reinauguração.

Terceira partida reservava um personagem especial.  Dia 26 de junho. O Grêmio enfrentaria o Argentinos Juniors, equipe de Diego Armando Maradona. Na época, o atleta era considerado o fenômeno do futebol sul-americano. Naquele terceiro capítulo dos festejos da reinauguração da casa gremista, na Azenha, pisava o principal jogador do continente. Na história, seria a única vez em que o argentino jogaria em um estádio do Rio Grande do Sul. Contudo, quem foi ver Maradona, viu a estrela de Jorge Leandro brilhar. O jovem gremista fez o gol da vitória aos 38 minutos da segunda etapa. Em um chute de fora da área, o atacante balançou as redes, derrotando Diego Maradona no Estádio Olímpico.

Em entrevista a Daison Sant’Anna, Jorge Leandro, em 2003, relembrou o episódio: “Foi um jogo marcante. Todos torcedores que foram a campo queriam ver Maradona. Naquela época, ele estava despontando como um dos melhores jogadores do mundo. Eu tinha enfrentado ele no Campeonato Mundial no Uruguai, na base da Seleção Brasileira. Então, enfrentar ele não era novidade, mas sim enfrentar de clube para clube. E a pressão era muito grande por se tratar de Maradona. Só que naquele jogo eu roubei todo o espetáculo para mim. Eu tive a felicidade de marcar o gol da vitória. Para minha alegria, eu tive a honra de enfrentar o melhor jogador do mundo e ser considerado o melhor jogador da partida. Foi uma noite inesquecível”.

Foto: Zero Hora

Com a nova fase do Olímpico Monumental, o Grêmio elevou seu patamar. Em 1981, ano seguinte da reinauguração da casa, o time começaria a conquistar o território nacional, vencendo o Campeonato Brasileiro. Junto com a conquista, veio o protagonismo nos torneios. A equipe perde a final do Brasileirão em 1982. Contudo, garante vaga à Libertadores da América. No torneio sul-americano, desbrava a América e conquista o título inédito ao estado em 1983. Ainda nesse ano, o clube pintaria o planeta de azul ao conquistar o mundo em Tóquio contra o Hamburgo, da Alemanha. O Grêmio saía do patamar regional para o patamar monumental, e teve no seu estádio o alicerce dessa mudança.

Em entrevista à RBS, em 1989, o presidente Hélio Dourado, responsável pela modernização e reforma do estádio, destacou a importância desse episódio para a história do clube: “O Olímpico concluído teve um papel muito importante. Antigamente, com o Olímpico devendo muito, como devia como estádio de futebol, eu acho que até os jogadores tinham um complexo quando se dirigiam a estádios grandes. A gente sentia isso. E com o Olímpico concluído a gente esqueceu disso e partimos para uma outra”.

Um clube não é formado apenas por jogadores. Dirigentes, em muitos momentos, fazem jogadas de craques que não são vistas pelos torcedores. Presidente Hélio Dourado foi um craque na condução da reforma do Olímpico. Fez um golaço para a história do clube. Antes da equipe conquistar a América e o Mundo, o Grêmio precisou dar um passo monumental em sua narrativa.

“A conclusão do Olímpico foi seguida não só de obras, mas também uma reformulação administrativa do Grêmio. Eu acho que nós preparamos o Grêmio para essa década. E, modestamente, vou dizer: nós transformamos o Grêmio, que, na época, deveria ser uma venda comum, em um supermercado, com as nuances de supermercado. Tanto é verdade que em discursos e manifestações que eu fiz depois de ganharmos o título nacional, em 1981, quando atingimos a maioridade do futebol do Grêmio, eu dizia que naquele acompanhamento, naquela sequência, pelos companheiros de clube que eu tinha, que eu saberia que vinham depois de mim, a conquista da América e do Mundo seria um passo normal”, declarou Dourado em entrevista à RBS em 1989.

Fontes: Daison Sant’Anna, Zero Hora, Rádio Gaúcha, RBS, Rafael Kehl

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